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“Delta Estácio Blues”, da cantora Juçara Marçal: o disco do ano


Delta Estácio Blues”, da cantora Juçara Marçal, é o melhor álbum do ano e nem precisaria ter ganho o Prêmio Multishow 2021 em diversas categorias para afirmar isso. Entre todas as tentativas de se criar uma nova canção popular brasileira, com todas as vestimentas que tem direito, o álbum é, de longe, o mais criativo, moderno e, sobretudo, sério.

Além de melhor álbum, Juçara ganhou os prêmios de melhor canção, com “Crash”, do rapper paulistano Rodrigo Hayashi, conhecido como Rodrigo Ogi e, de quebra, Kiko Dinucci, o produtor de “Delta Estácio Blues” venceu como melhor produtor.

Pra quem acompanha a trajetória da cantora desde os grupos A Barca e Vésper e, mais atualmente, desde 2008, com o Álbum “Padê”, que inaugura a parceria com Dinucci – que posteriormente veio a se fixar como o grupo Metá Metá – nada disso é novidade. Já não é de hoje que a dupla faz alguns dos melhores álbuns de nossa música.

Com “Delta Estácio Blues” Juçara consegue, de fato, um grande álbum, desde o repertório, suas interpretações, arranjos e a produção. Os sons eletrônicos e padrões criados por Dinucci não caem na tentação barata da pista de dança, mas podem muito bem ser dançados. Não se trata de música pra divertir, apesar de dar prazer, ser boa de ouvir.

A canção urbana de Juçara Marçal tem um pé no Brasil profundo, outro nos terreiros e os vários tantos que ela quiser pelas ruas das grandes cidades brasileiras. O disco parte da bela “Vi de Relance a Coroa”, do ex-Mestre Ambrósio Siba. A cantora se acomoda de maneira confortável à cama eletrônica criada por Dinucci. Sons, canção e voz se misturam, entrelaçam e passam de uma faixa a outra com unidade quase conceitual. Tudo converge para a entrada de “Cais”, assinada pela própria cantora, Kiko e Negro Leo.

Capa do disco Delta Estácio Blues. Foto: Divulgação

Tudo na música de Juçara é urgente, pronunciado, de certa forma nervoso. Com coragem artística e sem proselitismo, aponta o dedo nas feridas e mal feitos em imagens rascantes e fotográficas: “Robert Johnson escreveu, 29 canções, era um homem medíocre, tocando violão”, anuncia a faixa título. Não tem, no entanto, trato com o diabo, mas com “Bide, Baiaco, Ismael no Estácio pagão”: “E reapareceu Delta Blues Mississipi”.

“Ladra”, de Tulipa Ruiz remete ao Lira Paulistana. Não à toa, o pai da compositora é o guitarrista ex-Isca de Polícia Luiz Chagas. Juçara nasceu no Rio, mas vive e desfia em São Paulo sua carreira.

E por falar na capital paulista, “Crash” é pau, hip hop. Porrada do início ao fim, briga de rua repleta de imagens ricas, fortes cuidada do início ao fim para que instrumental e cantora gastem todas as energias possíveis ao mesmo tempo: “Ninguém mandou você vir me aperrear
Vai tomar madeirada (eu vou te madeirar)”.

Tem mais, muito mais e vale seguir mais uma vez com Juçara Marçal, Kiko Dinucci e companhia. O disco do ano, e vem mais por aí. É só esperar.



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